sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Depois de um longo recesso...

Meus olhos esmiúçam o mundo à procura de um significado que engrandeça tudo, e que me faça ficar
Não faço ideia de qual era a minha expectativa em relação aos 30 anos quando tinha 15 ou 20. Acho que simplesmente não pensava nisso. Não me importava. Ao menos fisicamente falando. Projetava o meu futuro como jornalista, minha carreira. A trajetória profissional falava mais alto nesta época. Era tão verdinha, e tão madura. Ingênua para tantas coisas, principalmente para aquelas do coração, e muito sóbria quando o assunto era minha escolha profissional. Tinha uma certeza inabalável de meu caminho, e segui pela estrada sem pegar atalhos, sem olhar para trás.

Acho que esta é uma característica dos 20 anos. A gente não olha para trás, porque não tem muito passado para olhar. Avaliar o quê se a lembrança mais longínqua são a infância e a pré-adolescência?

Aos 30, completados em 2009 com um certo pessimismo em relação ao mundo e muita melancolia em relação à vida, olho para trás quase que todos os dias. Repenso minhas escolhas, refaço minhas pegadas e às vezes não entendo como pude ser tão irracional em determinadas escolhas, tão precipitada. Mas acho que é normal, dos 20 aos 30, a gente tropeçar na vida. Desviar do buraco pra quê? Se cair, saio rapidinho! Acho que funciona assim a mente de uma garota tipicamente sonhadora, de 20 e poucos anos, que quer descobrir o mundo.

De lá para cá, não fiz tantas bobagens assim. E construí algumas coisas boas também. O balanço não é negativo. Mas fica sempre aquela dúvida e certo arrependimento: será que eu deveria ter virado à esquerda, e não à direita? Ou vice-versa (aos politizados chatos, nada a ver com direita e esquerda que vocês estão pensando!). 
Sei que aos 30, continuo sonhadora. Só que estou mais questionadora. Mais cautelosa. Mais bundona, pra falar o português claro. E esta covardia me incomoda um pouco, porque fiquei com medo de repetir alguns erros, e tendo medo de deixar de viver. Vivo um momento contraditório, e me vejo obrigada a fazer escolhas entre o certo e o duvidoso, o cômodo e o inesperado, que me abalam profundamente e me fazem ver o quanto fiquei fechada pra balanço, durante tanto tempo, assistindo à banda passar. Só que agora, que a banda me chama para rua, sob apitos estridentes e animados, me dá um medo danado de abrir a porta de casa. Às vezes fecho até a janela para não ouvir o barulho que a banda faz. Quem sabe assim ela passa e eu perco a vontade de me atirar de vez.

Como saber se não estou escolhendo o errado de novo? E como saber se o que escolhi antes estava errado?

Aos 30, continuo míope. Queria fazer cirurgia para acabar com esta cegueira parcial, que me impede de sonhar nítido e insiste em me fazer ver embaçado quando acordo. Mas não posso. Minha córnea tem uma restrição que impede a cirurgia. Pior: pode ser que fique cada vez mais míope. Isso me preocupa. Porque minha alma também é míope. Minha alma, e suas janelas (os olhos) são míopes e enxergam o mundo enviesado. E pra piorar, meu coração é um tanto vagabundo. Esta é uma confissão e tanto, e aí me dou conta que deve ser por isso que posso ser como Drummond, gauche na vida.

Perco o ar de saudade do que não tenho mais.

Quero recuperar o tempo perdido, os anos que eram para ser de ouro. Foram de bronze, quem sabe? Mas nunca me contentei com terceiro lugar. Muito menos quando o terceiro lugar é a própria vida, que vai, e vem, que vai e vem, e nada muda, nada muda...

Fico calada diante da perplexidade das descobertas. Paraliso, porque tenho medo de me iludir. Ficar cega de emoção. Com meus olhos deficientes e meu coração de açúcar.